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eu era mudo e só

poema suicida

quem me olha assim
não percebe o abismo

espaço de queda
no caminho da impressão.

quem tenta ver a mim
desconfia do controle
equilibrado

no fio
da loucura
o sangue escorre.

ninguém além de mim
sabe da vertigem
mapeada apocalipse
marcado em calendário.

desafio oculto
(ordem trêmula)
me atiro no poço
e te convido

o fundo
só eu conheço.


.

eucaristia e evangelho no centro de manaus

ele dança funk
na Saudade
com pose de milagre
duvidoso.

uma entrega um cálice
o corpo Dele
bate eleva bate
como se pousasse
em línguas.

não suspeita a dor
de última ceia
no olho ajoelhado
que o devora.

não se importa
com a promessa
de vida que insinua
às mãos tensas
cruzadas.

quando o ônibus chegar
escolhido hei de
semear pela terra
a palavra sagrada
que ele não revela.

maria (uma tentativa)

tentei fazer um poema
sobre a minha mãe
e seu corpo escapou
entre as palavras.

uma mulher inventada
só habita a cabeça
de quem acredita
mas ela está em muitos
outros lugares.

as mãos que beijo
tocaram o sexo
(seu e dos homens)
sua voz gritou
outras canções
de ninar.

ignorei sua latência
– ela sangra
e escorre e exala
pela casa –
explosão inapreensível
para o inodoro da página.

não percebi a bacante
tomando coca
a sacana de
havaiana.

ela é tanta coisa
dentro de tanta coisa
que o único poema possível
sobre a minha mãe
é um poema sobre
um poema sobre a minha
mãe.

dois convites gregos

I

é razão
aquilo que arde?

invadiremos um
ao outro
com interrogações.

assediar a dúvida
enredados no jogo
das mentiras

prova meu erro
reprovo teu
erro.

II

descobrir algo novo
ao abrigo das coisas
velhas.

brinca de saber
comigo:
medir a sombra
dos corpos
tentar eclipses
inventar um
tempo.

acorda e me vê
criança de todo
pensamento.

fissura

queria muito fumar
um cigarro
mas o templo
concreto
rejeita rituais
suaves
de ilusão.

queria muito
fumar um cigarro
se a fumaça

ponte
entre o corpo

e a glória

sonho
olho no intangível

não fosse impossível
agora.

queria
muito fumar um cigarro
e poderia
caso o desejo
-feito cinza-
não apagasse
na superfície.

realidade.

íncubo/súcubo

eu
demônio
devoro teu sonho
de noite
sorvo teu sono
quando lasso lambo
meu lábio seco
e roubo de longe
teu ar de desespero
desfalecendo.

e é nada
tua sombra
tua sobra (a memória)
a forma noturna e
abstrata
da qual me alimento
com fome
da verdade:
o corpo
imenso
o perdido
nervo tenso
que pesava
por cima
enquanto eu
demônia
tremia.

news to home

”para Chantal Akerman e sua mãe, assim como para todos os filhos que erram o caminho de casa”

sei que não escrevo faz tempo
e que a senhora sente minha
falta e quer que eu retorne
mas acontece
que nao sou mais o mesmo.
aqui não me reconheço
quando vejo que esqueço
de casa ao abrirem as portas do metrô.
fico triste quando me conta nas cartas
do pai
dos casamentos
das doenças
e ando pelas ruas da cidade
mesmo com saudade
olhando com muita atenção
os homens que nunca conheci
as mãos dadas anônimas
os drogados e os prédios sujos.
antes ouvia os ecos da sua casa
pelos prédios
nas conversas dos velhos
sua voz doce e seu controle
na sombria liberdade desses bairros
que falam outra língua.
a ternura materna
no cochicho dos ratos
cruzando o asfalto.
sei que a senhora quer que eu volte
e no entanto não estou mais ouvindo sua voz
como antes, leio suas cartas
e o som se mistura aos carros
às pessoas
ao movimento
um útero de pavimento
mãe já não te escuto
mãe dói muito
não ser teu filho
mãe não

me deixe aqui sozinho.

invenção da roda

me repito.
espiral e labirinto
dentro de cada gesto
que finjo escolher.

mesmo não querendo
me re
pito.
na rotina antropofágica
do vício
uma faminta serpente
engole a si mesma
para sempre.

smoke gets in your eyes

a vertigem
ele invade e jorra
nos vasos
me tomando de assalto
premeditado.

o vestígio
na cicatriz muda
alcatrão oculto
que açoita as noites
de febre.

a carícia e o enigma
do teu fumo:
deixei entrar mas já previa
o vazio do futuro.

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